segunda-feira, 1 de abril de 2013
Bertrand Russel, 1935.
É essencial que a instrução seja mais completa do que é agora e que procure, em parte, educar e refinar o gosto, de modo que um homem possa gozar, com inteligência, do próprio tempo livre... Uma população que trabalha pouco, para que seja feliz, deve ser instruída, e esta instrução deve levar em conta as alegrias do espírito, além das utilidades diretas derivadas do saber científico.
Acredito no Deus de Spinoza: Einstein
Albert Einstein (1879-1955), físico alemão de origem judaica, quando, em 1921, perguntado pelo rabino H. Goldstein, de Nova Iorque, se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens".
O DEUS DE ESPINOZA
Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.
Baruch Spinoza
O DEUS DE ESPINOZA
Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.
Baruch Spinoza
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Ausência - Drummond
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
NÃO DEIXE O AMOR PASSAR - Drummond
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Cada homem oculta um infinito
Por mais completo que seja nosso domínio sobre o outro, há sempre uma zona intransponível, uma partícula inatingível. O outro é inacessível não porque seja impenetrável e sim porque é infinito. Cada homem oculta um infinito. Ninguém pode possuir de todo o outro pela mesma razão que ninguém pode dar-se inteiramente. A entrega total seria a morte, total negação tanto da posse como da entrega. Pedimos tudo e nos dão: um morto, nada mais. Enquanto o outro está vivo, seu corpo é também uma consciência que me reflete e me nega. A transparência erótica é enganosa: nos vemos nela, nunca vemos o outro (PAZ apud CASTAÑEDA, 1998).
terça-feira, 5 de junho de 2012
Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Tao Te Ching, Capítulo 35
Conservando a Grande Imagem
O mundo passa
Passa sem danos
Com tranquilidade, serenidade e supremacia
A música e as iguarias
Param o viajante
As palavras que nascem do Caminho
São insossas, carecem de sabor
Olhar não é suficiente para vê-lo
Escutar não é suficiente para ouví-lo
Usar não é suficiente para esgotá-lo
Lao Tsé
O mundo passa
Passa sem danos
Com tranquilidade, serenidade e supremacia
A música e as iguarias
Param o viajante
As palavras que nascem do Caminho
São insossas, carecem de sabor
Olhar não é suficiente para vê-lo
Escutar não é suficiente para ouví-lo
Usar não é suficiente para esgotá-lo
Lao Tsé
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Noces à Tipasa
Maintenant, les arbres s'étaient peuplés d'oiseaux. La terre soupirait lentement avant d'entrer dans l'ombre. Tout à l'heure, avec la première étoile, la nuit tombera sur la scène du monde. Les dieux éclatants du jour retourneront à leur mort quotidienne. Mais d'autres dieux viendront. Et pour être plus sombres, leurs faces ravagées seront nées cependant dans le coeur de la terre.
A présent du mois, l'incessante éclosion des vagues sur le sable me parvenait à travers tout un espace où dansait un pollen doré. Mer, campagne, silence, parfums de cette terre, je m'emplissais d'une vie odorante et je mordais dans le fruit déjà doré du monde, bouleversé de sentir son jus sucré et fort couler le long de mes lèvres.
Non, ce n'était pas moi qui comptais, ni le monde, mais seulement l'accord et le silence qui de lui à moi faisait naître l'amour. Amour que je n'avais pas la faiblaisse de revendiquer pour moi seul, conscient et orgueilleux de le partager avec toute une race, née du soleil et de la mer, vivante et savoureuse, qui puise sa grandeur dans sa simplicité et debout sur les plages, adresse son sourire complice au sourire éclatant de ses ciels.
- Albert Camus (Noces suivi de L'été. Page 21)
A présent du mois, l'incessante éclosion des vagues sur le sable me parvenait à travers tout un espace où dansait un pollen doré. Mer, campagne, silence, parfums de cette terre, je m'emplissais d'une vie odorante et je mordais dans le fruit déjà doré du monde, bouleversé de sentir son jus sucré et fort couler le long de mes lèvres.
Non, ce n'était pas moi qui comptais, ni le monde, mais seulement l'accord et le silence qui de lui à moi faisait naître l'amour. Amour que je n'avais pas la faiblaisse de revendiquer pour moi seul, conscient et orgueilleux de le partager avec toute une race, née du soleil et de la mer, vivante et savoureuse, qui puise sa grandeur dans sa simplicité et debout sur les plages, adresse son sourire complice au sourire éclatant de ses ciels.
- Albert Camus (Noces suivi de L'été. Page 21)
Caminho da escola
Rompendo pelo ar virginal, caminhava por sobre um faiscar de motivos musicais de adolescência.
Na atmosfera fina e elástica, um frio, um frio.
Quase um sentimento de eternidade, tal como só as crianças (e os santos) podem ter.
- Andrade Muricy
Na atmosfera fina e elástica, um frio, um frio.
Quase um sentimento de eternidade, tal como só as crianças (e os santos) podem ter.
- Andrade Muricy
Mar
Gosto - dizia o navegador solitário - de me fazer ao mar. Em sua intimidade ressurge em mim o homem primitivo, deslumbrado diante das maravilhas: as estrelas, as solenes montanhas, o mar. O mar poderoso!
Gosto - dizia o navegador solitário - de me fazer ao mar. Qualquer dia, a qualquer hora, nasça no horizonte a manhã ou a luz se ausente, estou de matalotagem pronta para o inefável partir.
Pensar que esta água que me acolhe, mansa e companheira, é o mesmo mar-oceano que avança em baías, arrebenta contra falésias e arrecifes, se estende nun ermo invencível sob o azul de outros céus... Como sou pequeno! Que aniquilamento!
E os segredos que oculta no ventre esta pele de monstro, estirada, veludosamente, em minúsculas ondas. Mar: caminho, fonte, heroísmo - túmulo. Vejo braços de náufragos que pedem, ainda pedem socorro, na noite! Poderei ser um deles! Contudo, eu ouso!
Há - dizia o navegador solitário - os que buscam no mar a visão que dissolve o sal e os problemas; lava de todo o tédio a alma encardida. Eu não. Para mim o mar é motivação de graves pensamentos, de interiorização, de encontro de mim mesmo.
Sim - dizia o navegador solitário - de perigoso encontro de mim mesmo. Horas a fio, enquanto meu barco voga ao sabor das ondas, abandono-me a amargas meditações como a um ópio. Por isso eu busco, a esse amigo difícil, por isso eu gosto de me fazer ao mar.
- Xavier Placer
Gosto - dizia o navegador solitário - de me fazer ao mar. Qualquer dia, a qualquer hora, nasça no horizonte a manhã ou a luz se ausente, estou de matalotagem pronta para o inefável partir.
Pensar que esta água que me acolhe, mansa e companheira, é o mesmo mar-oceano que avança em baías, arrebenta contra falésias e arrecifes, se estende nun ermo invencível sob o azul de outros céus... Como sou pequeno! Que aniquilamento!
E os segredos que oculta no ventre esta pele de monstro, estirada, veludosamente, em minúsculas ondas. Mar: caminho, fonte, heroísmo - túmulo. Vejo braços de náufragos que pedem, ainda pedem socorro, na noite! Poderei ser um deles! Contudo, eu ouso!
Há - dizia o navegador solitário - os que buscam no mar a visão que dissolve o sal e os problemas; lava de todo o tédio a alma encardida. Eu não. Para mim o mar é motivação de graves pensamentos, de interiorização, de encontro de mim mesmo.
Sim - dizia o navegador solitário - de perigoso encontro de mim mesmo. Horas a fio, enquanto meu barco voga ao sabor das ondas, abandono-me a amargas meditações como a um ópio. Por isso eu busco, a esse amigo difícil, por isso eu gosto de me fazer ao mar.
- Xavier Placer
Palavras
Voz, vocábulo, verbo - palavras! Palavras, criaturas vivas. Vivíssimas criaturas. Como as flores, os pássaros, os homens.
Palavras - umas toscas, obscuras, escravas nascidas para os humildes ofícios, dóceis a um gesto; outras, orgulhosas, esbeltas, sugestivas - jovens aloucadas que se esquivam quando lhes acenamos e vêm quando as quiséramos distantes... Aquelas têm o ar nostálgico do adeus, do aperto de mão nas despedidas; estas, a gravidade das sentenças - palavras dos lábios de Ariel, aladas palavras, e pragas de Calibã, com pés de chumbo. E as que arrebataram ao arco-íris as mais belas tintas? Não se criaram no chão limoso das cavernas tantas outras? Odores esquisitos evolam-se das sílabas de algumas; algumas são cerradas, enxutas, solteironas.
Quantas são feitas de aurora e mel, em oposição a est'outras - negras, espessas, duras, de granito. Amoráveis palavras que têm o polimento dos seixos; e facetadas, espelhantes - cristais partindo-se ou risadas felizes - plásticas e móveis palavras, flamas batidas pelo vento - ardentes e inquietas. As que dizem e as que não dizem nada; as companheiras da solidão, dos altos pensamentos, das confissões patéticas.
E as que gritam, que rugem, e precipitam no céu ou levam ao abismo!
- Xavier Placer (O navegador solitário, 1956)
Palavras - umas toscas, obscuras, escravas nascidas para os humildes ofícios, dóceis a um gesto; outras, orgulhosas, esbeltas, sugestivas - jovens aloucadas que se esquivam quando lhes acenamos e vêm quando as quiséramos distantes... Aquelas têm o ar nostálgico do adeus, do aperto de mão nas despedidas; estas, a gravidade das sentenças - palavras dos lábios de Ariel, aladas palavras, e pragas de Calibã, com pés de chumbo. E as que arrebataram ao arco-íris as mais belas tintas? Não se criaram no chão limoso das cavernas tantas outras? Odores esquisitos evolam-se das sílabas de algumas; algumas são cerradas, enxutas, solteironas.
Quantas são feitas de aurora e mel, em oposição a est'outras - negras, espessas, duras, de granito. Amoráveis palavras que têm o polimento dos seixos; e facetadas, espelhantes - cristais partindo-se ou risadas felizes - plásticas e móveis palavras, flamas batidas pelo vento - ardentes e inquietas. As que dizem e as que não dizem nada; as companheiras da solidão, dos altos pensamentos, das confissões patéticas.
E as que gritam, que rugem, e precipitam no céu ou levam ao abismo!
- Xavier Placer (O navegador solitário, 1956)
Botas-de-sete-léguas
Tenho bota-de-sete-léguas. Cada vez que calço as botas, sinto que desaparecem tôdas as distâncias. Almoço em Paris e vou tomar chá em Tóquio.
Por onde cruzo ninguém sabe quem sou. Os homens não têm tempo de interrogar minha vida. Sou o homem que passa no meio dos outros homens e nada mais. Sei para onde vou e isso me basta. Os homens ignoram que minhas botas-sete-léguas só me levam para onde eu quero. São mais obedientes que um cão ensinado.
Quando calço minhas botas o próprio vento estremece, com receio de ser vencido em rapidez.
Daqui a pouco estarei na China. Conversarei com os velhos mandarins sôbre a civilização oriental. E êles me ensinarão que o homem que tem dois pães deve vender um para comprar um lírio.
- Paulo Corrêa Lopes (O poema em prosa, 1962)
Por onde cruzo ninguém sabe quem sou. Os homens não têm tempo de interrogar minha vida. Sou o homem que passa no meio dos outros homens e nada mais. Sei para onde vou e isso me basta. Os homens ignoram que minhas botas-sete-léguas só me levam para onde eu quero. São mais obedientes que um cão ensinado.
Quando calço minhas botas o próprio vento estremece, com receio de ser vencido em rapidez.
Daqui a pouco estarei na China. Conversarei com os velhos mandarins sôbre a civilização oriental. E êles me ensinarão que o homem que tem dois pães deve vender um para comprar um lírio.
- Paulo Corrêa Lopes (O poema em prosa, 1962)
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Tempo da travessia
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
- Fernando Pessoa
- Fernando Pessoa
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
M-Pesa: celular é dinheiro na África
A união da essência móvel do celular com o princípio da mobilidade do dinheiro, mais do que uma previsão para o futuro, já é uma realidade. Que o digam os milhões de africanos do Quênia, usuários do serviço de mobile money mais popular do mundo, o M-Pesa.
No início de 2007 a Safaricom, maior operadora de celulares daquele país, já tinha percebido que o mercado paralelo de vendas de minutos de conversa para celular representava um enorme potencial de negócios. Sem acesso a serviços bancários, mas já portadores de aparelhos de celular, os quenianos compravam créditos para celular em minutos e os transferiam uns aos outros como se fossem remessas monetárias, configurando um meio de pagamento informal. A Safaricom, do grupo europeu Vodafone, resolveu então entrar no circuito para tirar proveito dessa cultura emergente de uso do celular como instrumento de pagamento.
Foi assim que em março de 2007 nasceu o M-Pesa, serviço de mobile money da Safaricom. Juntando o "M" de mobile com o "pesa", dinheiro em suahili, língua da maioria dos quenianos, o serviço se tornou um sucesso imediato. Mais seguro e eficiente do que o mercado paralelo de minutos, o uso do M-Pesa foi logo adotado pelos quenianos e hoje atende 10 milhões de clientes, cerca de um quarto da população do país.
Um trabalhador de Nairobi, a capital do Quênia, que queira enviar algum dinheiro para a família que mora no interior compra créditos para o seu celular Safaricom e, via aplicativo do M-Pesa instalado no chip do celular, transfere estes créditos para a mãe ou a esposa. Com os créditos já em seu celular, o beneficiário desta transferência se dirige a uma loja da Safaricom em sua localidade e faz a troca por xelins quenianos. Simples assim, este serviço substituiu a principal forma de remessas monetárias para o interior: um envelope cheio de dinheiro entregue em mãos para motoristas dos ônibus interurbanos do país.
O crescimento explosivo do M-Pesa chamou a atenção do mundo todo e se tornou referência como modelo de uso do celular como instrumento de pagamento. Desde então a Safaricom abriu várias lojas pelo interior, montando uma rede expressiva de agentes próprios e de parceiros que também transacionam com o M-Pesa. Além de adaptar o uso do celular para fazer transferências, pagar contas e comprar ingressos, novos serviços já foram lançados pela Safaricom, como o M-Kesho que permite tomar empréstimos e operar uma conta bancária.
Atualmente o sucesso do M-Pesa extrapolou os limites do Quênia e já foi para a Tanzânia, África do Sul e até mesmo o Afeganistão, sem contar os planos de expansão para o Egito e a Índia. Por tudo isso, o M-Pesa já virou referência em mobile money, só rivalizando internacionalmente com o caso das Filipinas. Mas este já é um assunto para uma próxima coluna.
Fonte: Nextbillion.net | Negócios que reduzem a pobreza
Fonte: Nextbillion.net | Negócios que reduzem a pobreza
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Sobre a leitura e os livros
A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor. - Schopenhauer
sábado, 8 de janeiro de 2011
Pensar por si mesmo
No reino da realidade, por mais bela, feliz e graciosa que ela possa ser, nos nos movemos sob a influencia da gravidade, forca que precisamos superar incessantemente. Em compensação, no reino dos pensamentos, somos espíritos incorpóreos, sem gravidade e sem necessidade. Por isso não existe felicidade maior na Terra do que aquela que um espírito belo e produtivo encontra em si mesmo nos momentos felizes.
Schopenhauer
Se esse mundo fosse habitado por verdadeiros seres pensantes, seria impossivel haver essa tolerancia ilimitada em relacao aos ruidos de toda especie inclusive os mais horriveis e despropositados. De fato, se a natureza tivesse destinado o homem a pensar, ela nao lhe daria ouvidos, ou pelo menos os proveria de tampoes hermeticos, como e o caso dos morcegos, que invejo por isso. mas, na verdade, o homem e um pobre animal assim como os outros, cujas forcas sao apenas suficientes para conservar sua existencia. Por isso precisa de ouvidos sempre abertos que lhe anunciem a aproximacao do perseguidor seja de noite ou de dia.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O meu último suspiro p. 288 - Luis Buñuel
Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas, para a morte não há nenhum remédio: não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos. (...) Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim; Vinde portanto!
Aproveitemo-nos das boas coisas que existem, vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera! Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem! Nenhum de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque este é o nosso quinhão, esta a nossa sorte.
"Livro da Sabedoria", do Velho Testamento.
Aproveitemo-nos das boas coisas que existem, vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera! Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem! Nenhum de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque este é o nosso quinhão, esta a nossa sorte.
"Livro da Sabedoria", do Velho Testamento.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
A vocação política, segundo Max Weber
A política é um esforço tenaz e enérgico para atravessar grossas vigas de madeira. Tal esforço exige, a um tempo, paixão e senso de proporções. É perfeitamente exato dizer - e toda a experiência histórica o confirma - que não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível. Contudo, o homem capaz de semelhante esforço deve ser um chefe e não apenas um chefe, mas um herói, no mais simples sentido da palavra. E mesmo os que não sejam uma coisa nem outra devem armar-se da força de alma que lhes permita vencer o naufrágio de todas as suas esperanças. Importa, entretanto, que se armem desde o presente momento, pois de outra forma não virão a alcançar nem mesmo o que hoje e possível. Aquele que esteja convencido de que não se abaterá nem mesmo que o mundo, julgado de seu ponto de vista, se revele demasiado mesquinho para merecer o que ele pretende oferecer-lhe, aquele que permaneça capaz de dizer "a despeito de tudo!", aquele e só aquele tem a vocação política.
Max Weber
Não importa a idade, mas sim a soberana competência do olhar, que sabe ver as realidades da vida, e a força de alma que é capaz de suportá-las e de elevar-se à altura delas.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Trecho da concepção da educação, por Platão
Platão destaca o bem comum como forma ideal e perfeita. Na busca pelo bem, de forma incessante, o homem deveria percorrer, suplantando os percalços, o caminho do conhecimento, de forma a libertar o espírito humano das incertezas, erros e ilusões do senso comum. Essa busca levaria o homem ao ápice, ao mundo das idéias, da clareza e da verdade. Em contato com a verdade, formado, o homem estaria apto para exercer, na sua plenitude, a cidadania e usar o conhecimento adquirido por um processo seletivo, em benefício do Estado.
Artigo completo: http://www.webartigos.com/articles/3646/1/Estado-E-Educacao-Em-Platao/pagina1.html
Artigo completo: http://www.webartigos.com/articles/3646/1/Estado-E-Educacao-Em-Platao/pagina1.html
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Nietzsche
Todos os homens, de todos os tempos, e ainda dos de hoje, dividem-se entre escravos e livres, porque quem não dispõe de dois terços do próprio dia é um escravo, não importa o que seja de resto: homem de Estado, comerciante, funcionário público ou estudioso.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
WEB DESIGN
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009
História da Toyota e o surgimento do Lean Manufacturing
CONCEITOS: Just in Time, Kaizen, Kanban
Parte I
Parte II
Parte I
Parte II
terça-feira, 9 de junho de 2009
Documentário brilhante

Vu du ciel (A Terra) vista do céu
Documentário incrível, feito pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, sobre a relação de cada povo com a água de sua região. Ele passa pela Palestina, Mali, África, Estados Unidos, França, Brasil fotografando paisagens incríves e conversando com pessoas extremamente importantes para o nosso planeta. Uma verdadeira expansão de consciência. Impossível enxergar a água da mesma forma, sem repensar nossas atitudes. Making off em francês: http://www.youtube.com/watch?v=aIIHaoK3YQY
Documentário incrível, feito pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, sobre a relação de cada povo com a água de sua região. Ele passa pela Palestina, Mali, África, Estados Unidos, França, Brasil fotografando paisagens incríves e conversando com pessoas extremamente importantes para o nosso planeta. Uma verdadeira expansão de consciência. Impossível enxergar a água da mesma forma, sem repensar nossas atitudes. Making off em francês: http://www.youtube.com/watch?v=aIIHaoK3YQY
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