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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Palavras

Voz, vocábulo, verbo - palavras! Palavras, criaturas vivas. Vivíssimas criaturas. Como as flores, os pássaros, os homens.
Palavras - umas toscas, obscuras, escravas nascidas para os humildes ofícios, dóceis a um gesto; outras, orgulhosas, esbeltas, sugestivas - jovens aloucadas que se esquivam quando lhes acenamos e vêm quando as quiséramos distantes... Aquelas têm o ar nostálgico do adeus, do aperto de mão nas despedidas; estas, a gravidade das sentenças - palavras dos lábios de Ariel, aladas palavras, e pragas de Calibã, com pés de chumbo. E as que arrebataram ao arco-íris as mais belas tintas? Não se criaram no chão limoso das cavernas tantas outras? Odores esquisitos evolam-se das sílabas de algumas; algumas são cerradas, enxutas, solteironas.
Quantas são feitas de aurora e mel, em oposição a est'outras - negras, espessas, duras, de granito. Amoráveis palavras que têm o polimento dos seixos; e facetadas, espelhantes - cristais partindo-se ou risadas felizes - plásticas e móveis palavras, flamas batidas pelo vento - ardentes e inquietas. As que dizem e as que não dizem nada; as companheiras da solidão, dos altos pensamentos, das confissões patéticas.
E as que gritam, que rugem, e precipitam no céu ou levam ao abismo!

- Xavier Placer (O navegador solitário, 1956)

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