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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Botas-de-sete-léguas

Tenho bota-de-sete-léguas. Cada vez que calço as botas, sinto que desaparecem tôdas as distâncias. Almoço em Paris e vou tomar chá em Tóquio.
Por onde cruzo ninguém sabe quem sou. Os homens não têm tempo de interrogar minha vida. Sou o homem que passa no meio dos outros homens e nada mais. Sei para onde vou e isso me basta. Os homens ignoram que minhas botas-sete-léguas só me levam para onde eu quero. São mais obedientes que um cão ensinado.
Quando calço minhas botas o próprio vento estremece, com receio de ser vencido em rapidez.
Daqui a pouco estarei na China. Conversarei com os velhos mandarins sôbre a civilização oriental. E êles me ensinarão que o homem que tem dois pães deve vender um para comprar um lírio.

- Paulo Corrêa Lopes (O poema em prosa, 1962)

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